Mostrar mensagens com a etiqueta páginas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta páginas. Mostrar todas as mensagens

Castelo de legos


Com as palavras construo pontes e castelos, como se de um jogo de legos se tratasse.
Têm cores, os sentidos,
têm lugar, as formas.
Mas é apenas no conjunto que a dimensão se concretiza.

As palavras visito-as por vezes, quando há sentidos que jazem por dizer. E fica por isso, um silêncio barulhento, ruidoso, incómodo, que faz tremer o castelo de legos.

Consegues ouvir? Inclina a cabeça. Vem do chão, perto da muralha.

Se olhares bem, tem quatro paredes, oito portas e uma janela que a força da corrente já encerrou. Com três cobertores, às vezes ainda faz frio.

Como vês, é mais fácil sair do que ficar. Do lado direito o oxigénio não chega. À esquerda reina um turbilhão denso e ruidoso.
Repito, é mais fácil sair do que ficar. Espreitar e voltar a sair.

Mas vou contar-te um segredo. Baixinho, ninguém nos ouve. A noite está em silêncio há horas. É tarde, deve ter adormecido…
Estou certa, ninguém nos ouve.

Nesse castelo de que te falei existe um acesso secreto. Diz-se que é nesse lugar que se encontra a chave que permite abrir o septo que separa os dois lados. E uma vez aberto, o oxigénio inunda a tempestade que se desfaz em silêncios e, de súbito, as paredes fundem-se com as portas, transformando-se em aquedutos.

A brisa dissipa a muralha, a corrente e o frio.
Dissolve o sonho em pedaços de luz.

Ao coração, hoje chamo-lhe castelo de legos. E visito-o através das palavras. Eternas e fieis, presentes mesmo quando a noite adormece.


Casa do medo, casa da Esperança

O Hospital como Lugar de Esperança


“Esperança
Quero que sejas
A última palavra
Da minha boca.”
(Miguel Torga)

[...] Afinal, não será de todo ridículo sublinhar o contracenso: mais esperança no tempo, menos tempo para a esperança.[...]

CS, in "A Voz do Minho"
 Abril de 2009


A Carta


Remetente: Casa de Sonhos
Destinatário: À procura de um ideal

A carta chegou logo no dia seguinte.
Não devo saber ainda como agradecer a urgência das palavras que desenham o afecto, mas devolvi a resposta assim que encontrei uma caixa de correio por perto. Gosto deste ritual. Do cheiro a sinceridade na tinta do papel, da humildade em cada pensamento embutido nos factos partilhados. E arrepia-me pensar que às vezes um e-mail ou uma mensagem de telemóvel ficam suspensos só porque não apeteceu, quando sinto o tacto nas ranhuras de um postal feito com as mesmas mãos que o desenharam:

“Só quem tem um ideal encontra razões para viver.“

Na memória que o seu nome me oferece, a Maria vive numa Casa de Sonhos. O lugar onde a amizade se escreve com letra maiúscula, e onde a fé reside à cabeceira da alma, só pode ser uma Casa de Sonhos. E não deixa de ser também uma Escola de Medicina, aqui onde as limitações são constantes; aqui onde a morte acontece mesmo ao lado da vida que se celebra. Aqui onde se aprende o valor de cuidar dos eternos residentes que serão para sempre.

“Hoje em dia tem que se lutar muito pelo que queremos”, lembra-me.

Escuto e escrevo. Sei das lutas e do sofrimento, sei da mágoa e do vazio. E das desilusões. Como sei das pequenas conquistas, dos pequenos nadas. Das palavras que transportam o silêncio e o olhar dos que estão de bem com a vida.

Celebramos a partilha das palavras ditas, trocamos o sol e vimos o coração fotografar um abraço terno.

Cultura Entre Culturas

 
Cultura ENTRE Culturas é uma revista semestral dedicada ao diálogo intercultural e a estabelecer pontes e mediações entre todas as disciplinas, saberes e tradições. Publica ensaio, poesia e fotografia. A partir do mês de Abril.

Dialogal entre cultura e saber, religião e espiritualidade, tradição e civilização, entre tal coisa e cada outra coisa, Entre é um âmbito situado, mas não-localizável, entre tempo e eternidade, espaço e vacuidade, palavra e silêncio, discurso e percurso. É o lugar do não-lugar: entre tudo e nada, entre tudo e o quase nada que há em tudo.




estas e outras informações:
http://arevistaentre.blogspot.com/2010/03/cultura-entre-culturas-uma-revista.html

palavras que fazem sombra na noite


“ ... sozinha num dos degraus que conduzem à praia não a ver as luzes dos barcos nem sem ver as luzes dos barcos, a ouvir e não são as ondas que oiço, é o silêncio no interior das ondas e as vozes que me acompanham desde sempre e mal as vozes se calem levanto-me e regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regressso. “(1)

Das noites mal dormidas, só porque sim, ou talvez por desconhecermos essa forma de adormecer nós e ansiedades e vontades de saber o que ninguém pode dizer. Na almofada dos sonhos, onde escrevo às vezes, destas vezes em que as palavras me acordam sem bater à porta (e não é à porta que batem nunca, quando estamos fora de casa), oiço em cada onda não a dor do intermitente mas a ausência do que continua ou se quer continuado. (Em tempos de frio, as certezas aquecem mais do que mil cobertores.)

Num dos degraus que conduzem à praia, mais longe da foz de alma que não sabe desaguar a insónia dos dias preenchidos, escrevo. Sem saber a quem me dirigir, porque não deves ter morada certa. (Ou porque não sei bater à tua porta.)

Entre os caminhos do regresso à casa que desconhecemos ser nossa ou não,
como o sono cansado das palavras que fazem sombra na noite. quando as ondas se calam e só se ouvem os cavalos a correr na areia.

(1) Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? António Lobo Antunes