palavras leva-as o vento.
das palavras pela manhã
com os tons do que se faz eterno, as palavras pontuadas a vírgulas e bocejos. compenso o sono arrastado pela pressa de uma noite sem tempo, porque me sento, livre, à espera apenas daquele corredor onde verto a tinta ou a tela dos sentidos escorregadios ao pensamento.
o tempo todo, a pesar na balança da razão, os pedaços da emoção sentida até às palavras não ditas.
como se me servisse das palavras para chegar mais dentro. mais perto. De mim ou daquela certeza feita evidência de que quanto mais vejo, menos sei. E sem saber, comprometo esta solidão transitória às rédeas partilhadas de um estudo que se quer produtivo. disciplinado, pelo menos.
a circulação dos dias, entre sopros e frémitos
Estes dias frios mas solarengos de um inverno que ainda não chegou ao calendário trazem-me por vezes, (estas vezes), um aconchego diferente. Mais quente, mais perto. Como um frémito audível quando o coração sopra de uma lágrima perdida, na circulação da vida e das histórias.
Tempos contados pelo relógio das pressas, dos ritmos de uma época de exames que se aproxima, de um projecto promissor mas incerto, de ideias e dúvidas, emoções e sentimentos que hipertrofiam o coração, ainda que as tensões se diluam serenas, pelos dias e noites, sentidos, partilhados.
Não é nostalgia, ou simples filosofia gasta, circular, inútil, que cabe sempre nas palavras.
São palavras sim. mas palavras carregadas de um silêncio feliz. Audível quando, entre sopros e frémitos, as válvulas se fecham à circulação das lágrimas deprimidas. Dissolvendo o sal com os sorrisos a imitar os sons de quem ri.
destes dias.
podes dizer IV
dos pseudónimos que Deus usa quando não quer assinar
É-me cada vez mais difícil ler António Lobo Antunes sem me apetecer assaltar-lhe as palavras, escorregar-lhe dos sentidos agarrados ao corredor de uma alma que verte. Numa entrevista do mesmo autor que vi há tempos, este referia-se aos aparentes acasos da vida como “pseudónimos que Deus usa quando não quer assinar”.
É-me cada vez mais difícil ler António Lobo Antunes sem me apetecer assaltar-lhe as palavras, escorregar-lhe dos sentidos agarrados ao corredor de uma alma que verte. Numa entrevista do mesmo autor que vi há tempos, este referia-se aos aparentes acasos da vida como “pseudónimos que Deus usa quando não quer assinar”.
Não sou grande adepta de quem defende o sofrimento, ou o subscreve contracenando o papel de advogado de Deus: o sofrimento de quem realmente se sente sofrer, por ser demasiado doloroso e incapacitante; Deus, por O percepcionar demasiado intangível para ser abraçado com a razão, quanto mais com as palavras de circunstância, atiradas ao vento que passa.
Não obstante, também me parece algo absurdo aceitar que a nossa história se resume a um puzzle de peças que não encaixam, inacabado desde sempre...
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