Uma janela aberta para o rio



entre traços coloridos
e marcadores intersectados pela geometria do acaso,
em silêncio, 
as mãos cruzam a vontade e o saber.

e soltam páginas,
abertas de conceitos, mecanismos, relações.

Passa o tempo, e de vez em quando a porta abre-se para a sala,
onde jazem vivos, nas estantes erguidas,
ainda os livros,
depois de tantas mortes.

e depois de tantas horas, 

abre-se ainda uma janela para o rio,
D'ouro e concentrado de silêncios. 

silêncios que aproximam a certeza do dever cumprido,
que só a noite acolhe
e celebra.

o sono e hoje, porque não, 
o sonho. 

Em quarto crescente - parteII

O céu fechou a lua num telhado sem luz. Não se consegue ver daqui.
Chorou em silêncio,
chorou até desidratar e retomar o equilíbrio dos electrólitos e da água que perdeu.

O sol rasgou o pano, escorregou a mágoa para a nuvem mais próxima e voou para longe.
Mais longe do que é perto, mais longe do que é parte.

Depois veio a noite e de mansinho
desenhou um ponto de luz em cada constelação vazia.
Que o tempo acarinhou, sem medo de se perder. 


Up-to-know: offline


A memória é uma faculdade mental ou um processo neurológico, no mínimo, útil.

No entanto, fazer dela, (e de forma ridícula), o alvo principal de um exame de avaliação final, depois de um semestre de trabalho, aulas e estudo, não me parece, eufemísticamente, uma estratégia muito feliz.

Ainda por cima num tempo em que as bases de dados abundam nos consultórios médicos. E sabendo que não é, de todo, memorizável, a capacidade de agir com base nesses dados e naqueles que cada situação particular oferece.

Pensar, comunicar o que se pensa, agir atendendo aos anteriores. Nada disto é objecto de avaliação, directa ou indirectamente.

Supõe-se, portanto, que nada disto deva ser útil na prática clínica
(e não clínica.)

Apetece perguntar:
Where did you sleep last exam?

Em quarto crescente

a lua do outro lado da noite, o cansaço cá dentro.  uma janela comum.
não é porque sim, não é um cansaço simplesmente cansaço. 

tem nomes e lugares, causas e objectivos. é concreto.
por isso cresce, como cresce a lua, que ciclicamente se perde do tamanho que procura e constroi.

(cíclicas também as palavras, uma vez encontradas nos sentidos que as nutrem)
desta janela vê-se a lua crescer. mais longe, no tempo e no espaço, permanece talvez, acinética e serena,

como se todo o cansaço fosse em vão.  

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